Moradia sobre palafitas em Santos ganha status de sustentabilidade

"Eu moro no dique". Muitos ainda se referem assim ao citar o local onde acordam, tomam café e se preparam para a batalha diária até o retorno para o descanso à noite. Cerca de 9.700 santistas têm suas moradias na Vila Gilda, onde 3.600 lares estão em situação de favelas, junto ao mangue. Outra parcela dos moradores da Cidade sequer sabe o que é 'morar no dique' ou passou pela Vila Gilda, na Zona Noroeste. Esta realidade está sendo transmutada - e não é de agora. Já é possível mensurar investimentos que provocam a transformação profunda desta região santista para que 'morar no dique' seja somente uma expressão do passado.
O mais robusto indutor da mudança na Vila Gilda é um divisor de águas na urbanização sustentável no Brasil: o Parque Palafitas, um projeto para erguer 60 unidades habitacionais em uma área de 4 mil metros quadrados. Com a chancela do escritório do urbanista Jaime Lerner, considerado um dos urbanistas mais influentes do mundo, a proposta prevê moradias sobre as águas, píer flutuante e sistema de infraestrutura sustentável. É uma tecnologia similar à da construção de um terminal portuário, só que voltado para moradias.
No Parque Palafitas, estão sendo erguidos quatro conjuntos de apartamentos com 44 unidades e dois conjuntos de casas - cada um com oito residências térreas, totalizando 60 habitações. Cada apartamento terá 41,69m², com sala, dois quartos, cozinha conjugada com lavanderia, banheiro e área de circulação. As 16 casas terão sala de estar e jantar integrados, cozinha, área de serviço, dois quartos, banheiro e varanda.
As edificações gerais de apoio, institucionais e comerciais do Parque Palafitas ocuparão 309 m². Estão sendo construídos dois prédios comerciais, um com quatro salas e o outro, com três. A associação de moradores terá espaço próprio. Na área do projeto, foram removidas as habitações mais vulneráveis junto à água para permitir a regeneração do mangue e criar espaços de lazer, chamados de respiros. A revitalização usa metodologia de estaqueamento com laje, aplicada no exterior. São sete lajes de apoio. O entorno da área das lajes de apoio suspensas terá proteção de guarda-corpo, com 205m de extensão.

A chegada ao Parque Palafitas se dará por um sistema viário moderno e obras de infraestrutura já preparadas pela pela Prefeitura. Os trabalhos envolvem terraplanagem e drenagem para posterior pavimentação.

Ainda no tema habitação, no vizinho Bom Retiro, os 574 apartamentos do Conjunto Habitacional Santos AB - Prainha II também transformam a vida de famílias que moram em áreas de risco ou precisam de aluguel social. A área do projeto, no terreno Prainha do Ilhéu, de 63 mil m², foi cedida pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU), do Governo Federal, para o Município. O empreendimento é fruto de parceria da Prefeitura com a CDHU, do Governo do Estado, pelo Programa Vida Digna.
ESTAÇÃO ELEVATÓRIA

A transformação de dique para bairro Vila Gilda teve como um dos capítulos iniciais o funcionamento, em maio de 2023, da Estação Elevatória EEC 7 (Engenheiro Marcos Diniz). Trata-se de um moderno sistema de potentes comportas e bombas para conter enchentes na Zona Noroeste. Inserida no Programa Santos Mais, financiada com recursos próprios e empréstimos de bancos estrangeiros, a ECC 7 foi construída no final da Avenida Haroldo de Camargo, no limite com o município de São Vicente, em uma área aterrada de mangue.
SANEAMENTO BÁSICO
Acesso às redes de água e esgoto também marcam a nova etapa do local. A Sabesp prepara a conexão de aproximadamente três mil imóveis construídos sobre estacas de madeira nas margens do Rio dos Bugres para interligar redes de água e esgoto. Os trabalhos, previstos para 2026, vão se estender para as palafitas dos bairros das imediações para que estes moradores tenham acesso ao saneamento básico.
SAÚDE E CULTURA
Saúde e Cultura também foram dois fatores de transformação do local, oficialmente transformado em bairro graças a um projeto enviado pelo Executivo à Câmara em 2025. A Policlínica Vila Gilda, que beneficia cerca de 10 mil pessoas, e o Centro de Convivência Rádio Clube (Ceconv RC), espaço onde funcionava o Centro da Juventude (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1.291), foram inaugurados há um ano. O Ceconv dispõe de um anfiteatro e áreas para atividades de lazer, cultura e qualificação profissional para pessoas de todas as idades.
A construção da policlínica e do centro de convivência teve custo zero para o Município. As obras foram frutos de um Termo de Responsabilidade de Implantação de Medidas Mitigadoras e/ou Compensatórias (Trimmc) entre a Prefeitura e Brasil Terminal Portuário (BTP), com investimento total de R$ 13 milhões (R$ 5 milhões a policlínica e R$ 8 milhões o Centro da Convivência).
COMIDA ACESSÍVEL
Inaugurado no final de 2018, graças a uma parceria entre a Prefeitura e o Governo do Estado, o Restaurante Bom Prato Vila Gilda é outro equipamento que garante cidadania para quem mora nesta região de Santos. Oferece café da manhã, almoço e jantar. A segurança alimentar é garantida com refeições balanceadas a preços bem acessíveis.
Há mais de 20 anos a transformação da Vila Gilda se deu pela parceria com o Instituto Arte no Dique. A entidade atende crianças, jovens e adultos desde 2002, em parceria com a Prefeitura, oferecendo oportunidade de geração de renda com arte, cultura e educação.
