Pagu
Homenagem a Patrícia Galvão
Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), a Pagu, foi jornalista, escritora e militante política, figura marcante do modernismo e do Movimento Antropofágico, conhecida por sua atuação cultural e visão crítica e inovadora. Suas colunas e obras abordaram política, arte e questões sociais, com destaque para a defesa das mulheres e denúncias das injustiças sociais, como no Parque Industrial. Participou ativamente da luta ideológica e foi a primeira mulher presa por motivos políticos no Brasil, em Santos, em 1931. Incentivou o teatro e o jornalismo na Cidade, colaborando para a criação de entidades e para a construção do Teatro Municipal. Sua vida intensa e engajada refletiu a busca por transformação social e cultural, mantendo relevância até hoje.
1910
9 de junho: nasce Patrícia Rehder Galvão, em São João da Boa Vista (SP), filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão. O registro civil foi feito em 14 de junho, data posteriormente citada de forma equivocada como a do nascimento.

Publica as primeiras colaborações no Brás Jornal, usando o pseudônimo Patsi. Frequenta o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde é aluna de Mário de Andrade e Fernando Mendes de Almeida.

Participa do Concurso Fotogênico de Beleza Feminina e Varonil, da Fox. A vencedora feminina é Lia Torá e o masculino Olympio Guilherme, que segue para Hollywood.

Passa a frequentar o círculo modernista de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, a quem teria sido apresentada pelo poeta Raul Bopp. Bopp, aliás, reivindica a criação do apelido Pagu, acreditando que seu nome fosse Patrícia Goulart. Forma-se professora pela Escola Normal de São Paulo.

Publica sua primeira colaboração na Revista da Antropofagia. Inicia o diário “Romance da época anarquista…” Em maio, começa o relacionamento com Oswald (segundo Augusto de Campos). Em setembro, casa-se formalmente com Waldemar Belisário; o casamento é anulado em fevereiro de 1930.

Em janeiro, casa-se simbolicamente com Oswald em São Paulo, em uma cerimônia peculiar, no cemitério, diante do jazigo da família dele. Em setembro, nasce Rudá de Andrade. Em dezembro, viaja a Buenos Aires e conhece Luís Carlos Prestes, Jorge Luis Borges, Eduardo Mallea, Victoria Ocampo e Norah Borges.

Filia-se ao Partido Comunista Brasileiro. Publica a seção “A mulher do povo”, no jornal O Homem do Povo. É presa em Santos, durante um ato em homenagem a Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, e levada para o cárcere da Praça dos Andradas, hoje um centro cultural que leva o seu nome.

Vai morar numa vila operária, no Rio de Janeiro, onde trabalha como lanterninha de cinema e tecelã. Colabora com o Diário de Notícias.

Publica o romance Parque Industrial, sob o pseudônimo Mara Lobo. Seria o primeiro romance proletário brasileiro. Inicia uma viagem internacional pelo mundo, enviando reportagens para jornais como Diário de Notícias e o Correio da Manhã cariocas e o Diário da Noite paulistano. Passou por Belém, Califórnia, Japão, China, Rússia, Polônia, Alemanha e França. Conhece Sigmund Freud, George Raft e Miriam Hopkins. Em Kobe, no Japão, reencontra Raul Bopp.

Na Mandchúria, conhece o último imperador, Pu-Yi, com quem anda de bicicleta pelos corredores do palácio da corte. Com ele, consegue as sementes de soja que iniciam a cultura do cereal no Brasil. Decepcionada com o regime comunista, trabalha em Paris, no jornal L'Avant-Garde. integra o PC francês e convive com Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard e René Crevel, na casa de Elsie Houston e Benjamin Péret. É ferida em manifestações e presa três vezes.

Evita a deportação para a Alemanha nazista graças ao embaixador Souza Dantas, que a traz para o Brasil. Separa-se de Oswald. Presa por participação política após o levante comunista e novamente durante o Estado Novo de Getúlio Vargas.

Libertada, casa-se com Geraldo Ferraz.

Nasce Geraldo Galvão Ferraz

Trabalha em jornais e revistas; publica crônicas e contos policiais. Em 1945, lança o romance A famosa Revista (com Geraldo Ferraz) e participa do jornal fundado por Mário Pedrosa.

Participa do Congresso de Poesia, em São Paulo.

Sobrevive a uma tentativa de suicídio; continua atuando na imprensa.

Candidata-se a deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Publica o panfleto “Verdade e Liberdade”.

Estuda na Escola de Arte Dramática. Passa a viver em São Vicente e Santos e trabalha no jornal A Tribuna, onde cria uma das primeiras colunas de televisão do País, com o pseudônimo Gim.

Dirige Fando e Lis, de Fernando Arrabal, com Paulo Lara. Coordena o Festival de Teatro Amador de Santos.

Encontra Jean-Paul Sartre e Eugène Ionesco, em São Paulo e Rio. Traduz e dirige a peça A Filha de Rappaccini, de Octavio Paz, em Santos.

Publica seu último texto em A Tribuna, o poema “Nothing”. Viaja a Paris para uma cirurgia. Após o fracasso da intervenção, tenta o suicídio. Morre em Santos, em 12 de dezembro. Seu corpo foi sepultado no Cemitério da Filosofia (Saboó).

Em homenagem ao Dia da Mulher, a Prefeitura homenageia Patrícia Galvão transferindo seus restos mortais de uma gaveta para um jazigo no Cemitério do Saboó, garantindo um espaço definitivo e digno para a preservação de sua memória. Ao promover a homenagem, a Administração Municipal reafirma a importância de manter viva a trajetória de figuras femininas que transformaram a sociedade e abriram caminhos para novas conquistas. O gesto simbólico também representa o reconhecimento institucional da relevância histórica e cultural da autora para Santos, cidade onde construiu parte significativa de sua história.

Divulgação e Acervo Lúcia Teixeira / Centro Pagu Unisanta
A escritora, educadora e psicóloga Lúcia Teixeira é a biógrafa oficial e profunda conhecedora da obra de Patrícia Galvão, Pagu. Suas pesquisas começaram em 1988 e, desde então, fundou o Centro Cultural Pagu Unisanta (reunindo mais de três mil documentos entre textos, fotos, cartas, cadernos e fotos inéditos) e escreveu quatro obras sobre a escritora: Trilogia Pagu -Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo (1999); Croquis de Pagu (2004); e VIVA PAGU - Fotobiografia de Patrícia Galvão (2010), indicado para o prêmio Jabuti 2011 e “Os cadernos de Pagu – Manuscritos inéditos de Patrícia Galvão (2023).
Para Lúcia, pesquisar e escrever sobre Pagu é uma forma de fazer justiça, e por isso valoriza também a iniciativa da Prefeitura: “Foi uma mulher que não teve medo de rever posições durante as várias fases da vida, uma jornalista documentando fatos e deixando pistas de seu trabalho. O seu exemplo de solidariedade também é importante nesse momento, em que precisamos tanto de liberdade e de esperança. E ela ainda tem muito a nos dizer”.
Lúcia reforça que o período de maior intensidade de Pagu foi justamente sua militância cultural: “Quando se casou com o jornalista Geraldo Ferraz e veio para Santos, na década de 50, manteve intensa atividade como cronista e crítica literária, além de se envolver e promover o teatro amador, sua paixão. Patrícia faz campanha pela construção do Teatro Municipal, conseguindo seu intento; incentivou a formação de grupos amadores e de teatro de vanguarda. Em Santos, fundou a Associação dos Jornalistas Profissionais e a União do Teatro Amador. O jornalismo de Pagu cobre praticamente três décadas. Em A Tribuna, onde trabalhou de 1954 até sua morte, falou sobre os grandes renovadores da linguagem. Suas lutas até hoje são atuais, em busca da liberdade e do conhecimento.”
Lúcia Teixeira é autora de 13 livros premiados nas áreas de Educação, Literatura, Psicologia e temáticas infanto-juvenis. É Diretora-presidente do Instituto Superior de Educação Santa Cecília, que mantém a Universidade Santa Cecília – Unisanta, e diretora do Colégio Santa Cecília, em Santos. É a primeira mulher a ocupar a presidência do Semesp, entidade que representa as instituições de ensino superior do país.