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Veja como Santos prepara 250 refeições por dia para pessoas em vulnerabilidade

9 de novembro de 2019
18h 20

Patrícia Fagueiro  

As atividades começam cedo na cozinha da Seção de Nutrição (Senutri) da Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds). Às 7h, de domingo a domingo, panelões já estão no fogo para garantir as cerca de 250 refeições diárias servidas no almoço e no jantar nos equipamentos voltados a pessoas em vulnerabilidade social, em especial pessoas em situação de rua. Pouco tempo depois de os fogões estarem acesos, a Rua 7 de Setembro, na Vila Nova, é tomada pelo aroma agradável de comida caseira.

A equipe do Santos Portal acompanhou o preparo das refeições e juntou-se aos usuários da Seção de Acolhimento e Abrigo Provisório de Adultos, Idosos e Famílias em Situação de Rua (Seacolhe-AIF) no almoço. Como as refeições são direcionadas para uma quantidade flutuante de público, pouco antes de a cozinha entrar em funcionamento é necessário checar com cada unidade a previsão de quantas pessoas serão servidas naquele dia. O objetivo é adequar a quantidade a ser enviada de forma a satisfazer os usuários e evitar desperdícios.

Na cozinha da Senutri, são preparados o almoço e o jantar a serem servidos no Seacolhe-AIF, na Seção Abrigo para Adultos, Idosos e Famílias em Situação de Rua (Seabrigo – AIF) e Núcleo de Atendimento Integrado (NAI), que atende menores de idade em conflito com a lei. Para a Casa Dia Mãezinha Joana, que recebe idosos em situação de vulnerabilidade, a Senutri envia almoço e sopa diariamente. Nos fins de semana e feriados, a Seção de Acolhimento de Criança e Adolescente (Seacolhe/CA) também recebe as refeições, com o descanso da cozinheira da unidade nestas datas.

Quando o número de abrigados pela Prefeitura aumenta e é necessário colocar em funcionamento o Abrigo de Emergência, a produção da Senutri cresce. O mesmo acontece com o funcionamento da Casa de Inverno nos meses mais frios.

O café da manhã e o lanche da tarde são feitos nos equipamentos, bem como as saladas, com ingredientes que são encaminhados paras as unidades. A preparação é feita por pessoas que passam por capacitações anuais ou de acordo com as necessidades voltadas à manipulação de alimentos. Para o Centro Pop, equipamento voltado para a realização de atividades que visem a ressocialização de quem está nas ruas, a Senutri encaminha sanduíches de queijo e presunto individualmente embalados e identificados com etiqueta, na qual é inserida também a data de validade.  

Há oito anos, Ailton Garcia Rodrigues é um dos cozinheiros responsáveis pelas delícias que dão força e energia para aqueles que estão reconstruindo suas vidas. “Quem é cozinheiro faz as coisas com amor, não se deve transportar nada de ruim para a cozinha. Nós não temos contato direto com quem prova a comida, mas os operadores sociais às vezes nos dão retorno, elogiam a comida e essa é a nossa maior gratificação”, garante ele, que tem intimidade com a cozinha desde muito jovem.  

DISTRIBUIÇÃO

Por volta das 10h30, cada alimento é generosamente proporcionado pelos cozinheiros de acordo com a quantidade de refeições levantadas no início do dia. Cada alimento é colocado de forma separada em grandes cumbucas de alumínio com tampa, que, após preenchidas, são imediatamente colocadas dentro das hot boxes – caixas térmicas utilizadas em cozinhas industriais que têm o poder de manter a temperatura da comida por muitas horas. Afinal, as entregas são realizadas uma vez por dia e é necessário que à noite a comida ainda esteja quentinha.

Uma equipe da Prefeitura inicia a distribuição por volta das 11h, com veículo a serviço da Seds. Ao meio-dia, o almoço é servido. A estratégia de enviar separadamente cada alimento e servi-lo em esquema de buffet permite ao usuário do equipamento escolher o que deseja comer e em que quantidade.

Em um dia da semana passada, por exemplo, o cardápio do almoço foi composto por arroz, feijoada e farofa com couve. No Seacolhe-AIF, houve quem comesse um primeiro prato diversificado e depois repetisse apenas a feijoada. “Respeitamos os mais variados gostos: há pessoas que preferem comida mais molhada, com mais caldo. Também calculamos uma porção individual grande, pois é uma população que sente bastante fome, diferente do perfil de quem trabalha em uma indústria e se alimenta no refeitório da empresa, por exemplo”, explica a nutricionista da produção, Thiara Pereira Carvalho.  

Cuidado e carinho

O cardápio é cuidadosamente elaborado por Thiara, de forma a proporcionar combinações com equilíbrio nutricional, garantindo sempre um tipo de proteína diferente no almoço e no jantar. A comida é preparada com temperos naturais e ervas.

No Natal e no Ano Novo, por exemplo, chester, pernil, arroz e farofas especiais compõem o cardápio. “Nosso objetivo é que essas pessoas fiquem fortes, se mantenham saudáveis e que este alimento também traga conforto, pois o alimento está muito relacionado à parte emocional e de lembranças. Aos domingos, costumamos servir frango assado para que se sintam em casa. O que mais queremos é que se sustentem da melhor maneira”, destaca Thiara.

Outra preocupação da profissional é como a identificação do sabor da comida ocorrerá. Pessoas com histórico de alcoolismo e fumo costumam desenvolver distúrbio no paladar e comidas com tempero caprichado se tornam mais atraentes. “O cardápio é feito mensalmente, mas está sujeito a alterações se percebemos que podemos introduzir uma preparação diferente. Avaliamos a preferência dos nossos usuários e procuramos atender aos mais variados gostos. Geralmente cozinhamos os legumes junto com a carne ou o frango, por exemplo. Percebemos que há uma aceitação melhor junto ao caldo do que se fosse servido separadamente”, exemplifica.  

Tá na mesa!

Ao meio-dia, a Seacolhe-AIF abre as portas para os usuários que passaram a noite no equipamento e se credenciaram para receber o almoço. São pessoas que apenas dormem lá e passam o dia na rua, muitas vezes procurando emprego ou fazendo atividades que visem sua capacitação profissional. Em fila, aguardam a vez de serem servidos por um profissional da seção de acolhimento, responsável por colocar no prato o alimento escolhido e na quantidade desejada. Laranjas são ofertadas como sobremesa. Não raro, usuários repetem a refeição.

O cuidado no preparo dos alimentos, com opções por temperos naturais e ervas, pouco sódio (a carne seca da feijoada, por exemplo, foi trocada por paleta em formato de cubo) e com nutrientes variados também ajuda a manter a saúde. Que o diga Renato do Espírito Santo, de 60 anos, que nasceu diabético e atualmente também é hipertenso. “A comida servida aqui é ideal e nutritiva. Mesmo a feijoada, que pode ser considerada mais pesada, não me faz mal. Com exercícios e uma boa alimentação, é possível passar dos 60 anos com visão e função renal boas”, destaca Renato, lembrando o quanto a qualidade do alimento é fundamental para que os diabéticos evitem complicações da doença.

Há pouco mais de um ano, Emerson Júnior Moraes dos Santos, de 46 anos, almoça diariamente no Seacolhe-AIF. Ele considera a comida “gostosa e nutritiva” e revela a preferência pelo “estrogonofe e frango assado”, que são servidos aos finais de semana. Há dois meses, ele faz parte do Programa Fênix, por meio do qual recebe uma bolsa-auxílio e trabalha em uma escola da Prefeitura de Santos. No futuro, pretende tirar a habilitação de moto e realizar entregas solicitadas via aplicativo, mercado que está em franca expansão no Brasil.

Para conhecer melhor o Programa Fênix e o trabalho desenvolvido nos abrigos do Município, acesse a página do Programa Novo Olhar.

Fotos: Rogério Bomfim 

Galeria de Imagens

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