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Menino autista vai ao cinema pela primeira vez na Vila Criativa

13 de outubro de 2019
17h 48

Maria Estela Galvão

 

Kauê Vicente Couto tem 13 anos e é autista. Mora com a família no Morro da Penha e frequenta a escola. Mas interagia pouco, era introspectivo. Até que, há alguns meses, incentivado pela coordenadora da Vila Criativa da região, Carolina Garcia Machado, ele conheceu algo que mudaria sua vida e a da família: o cinema. A novidade, segundo garantem os que convivem com o menino, o tornou mais alegre e comunicativo.

Tudo começou em março deste ano, quando Carolina passou a insistir com a mãe e a avó de Kauê que o levassem à sala de cinema da Vila Criativa, que fica apenas a alguns passos de distância da casa da família. ‘’Havia medo sobre como ele iria se comportar. Ele acabou vindo em um sábado para assistir a Uma Aventura Lego. Agora, Kauê é presença confirmada em todas as sessões’’, conta a coordenadora.

A avó, Josefa Anselmo Vicente, 64, lembra bem daquele dia. ‘’Ele foi com a mãe e voltou para casa dizendo que adorou. Enquanto as crianças faziam bagunça, ele ficava vidrado na tela’’.

Desde então, a ansiedade já toma conta de Kauê dias antes da sessão semanal. Ciente de que a hora da exibição do filme se aproxima, ele chega à Vila Criativa quase uma hora antes. ‘’Com salgadinho e refrigerante’’, frisa o garoto. Afinal, não tem parceria melhor do que cinema e algo para beliscar.

‘’Quando o filme acaba ele olha para mim e diz: Ah, já acabou?’’, conta a mãe, Mônica Anselmo Vicente, 38. E a euforia não acaba quando vai embora. Durante toda a semana, ele conta para a família e colegas da escola sobre a história que assistiu.

‘’O cinema faz muito bem para ele. A mãe e a avó já participam de atividades na Vila Criativa e ele só assistia. Agora é ele quem frequenta o espaço, e não é só o cinema, não’’, diz Carol. É que, depois de descobrir o prazer de assistir a um filme na telona, Kauê foi apresentado ao futsal e à capoeira, atividades que faz questão de praticar.

Com a agenda cheia de atividades, Kauê agora brinca, acena para conhecidos de longe e dá risada. Mãe e avó, satisfeitas com a evolução do menino, torcem para que ele possa evoluir ainda mais. ‘’Ele é muito carinhoso, é o nosso amor. Nós vivemos por ele’’, diz Josefa’.

 

Deficiência sensorial

Psicólogo do Centro Especializado em Reabilitação (CER) da Zona Noroeste, Rubens Goulart, que tem especialização em neuropsicologia, explica que, nos autistas, o que ocorre é uma deficiência sensorial, quando o processamento de informações como luz, som e tato, por exemplo, ocorre de forma desregulada. Ou seja: o que é agradável para quem não tem autismo pode não ser para quem apresenta o transtorno.

‘’Qualquer condição, não necessariamente o cinema, que traga experiências sensoriais para servir de ajuste para aquele processamento pode ajudar a reorganizar ou melhorar o autista frente ao mundo’’, afirma o especialista.

Uma mesma experiência positiva para alguém com Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode não apresentar o mesmo resultado para outra pessoa que também tem o problema. Mas, no caso de Kauê, a atitude de levá-lo a conhecer coisas novas deu certo. ‘’Se não oferecermos novos ambientes, se não testarmos, não temos como saber. Quanto mais experiências proporcionarmos, maior a chance de encontrarmos alguma favorável’’, explica Goulart.

 

Clínica-Escola do Autista

Atualmente, a maior parte dos atendimentos de autismo pela Prefeitura é feita nos Centros de Atendimento Psicossociais (Caps) Infantis, que têm uma linha de cuidados voltada para esses casos.

Com o envolvimento das secretarias de Saúde e Educação, a Administração Municipal vai inaugurar, no primeiro semestre de 2020, a primeira Clínica-Escola do Autista do Estado de São Paulo. O prédio, no Marapé, funcionará como um centro de atendimento nas áreas de educação física, assistência social, psiquiatria, fonoaudiologia, psicopedagogia, terapia ocupacional, nutrição e de educação especializada.