Dia Mundial do Autismo: santista transforma diagnóstico tardio em caminho de autonomia
SANTOS TERÁ CAMINHADA SOBRE O TEMA. VEJA MAIS:
Caterina Montone e Airtom Guedes
“Sempre me senti um peixe fora d’água. Quando veio o diagnóstico, o alívio foi muito grande”. A história de Luana Oliveira, de 41 anos, reflete a realidade de muitas pessoas que recebem o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) apenas na vida adulta.
Lembrado nesta quinta-feira (2), o Dia Mundial de Conscientização do Autismo destaca a importância da informação, do acolhimento e da qualidade de vida - fatores que podem ser encontrados em Santos por meio de iniciativas municipais.
Para a campanha nacional deste ano, o tema escolhido foi “Autonomia se constrói com apoio”. Isso porque autonomia não significa independência total, nem um padrão único a ser alcançado, mas ampliar, com segurança e dignidade, as possibilidades de cada pessoa autista fazer escolhas e expressar preferências.

Algo que Luana encontrou ao longo de sua trajetória como servidora pública há 14 anos, atualmente na Secretaria de Assuntos Portuários e Emprego (Seporte). “Decidi falar abertamente sobre o autismo e fui muito bem recebida", revelou.
"Meus colegas respeitam meus limites, e isso faz toda a diferença. Sou muito metódica, gosto de organização e previsibilidade. Ambientes abertos, com barulho e muitas conversas, também me causam grande sobrecarga sensorial", contou.
Hoje, seis anos após a descoberta, Luana desenvolveu estratégias para o dia a dia: pequenas pausas durante o expediente, uso de abafadores de ruído e organização prévia das tarefas ajudam a manter o equilíbrio.

ESTATÍSTICA
Dados do IBGE (Censo 2022) indicam que a prevalência de diagnósticos é maior entre homens em todas as faixas etárias até os 44 anos. Já nas faixas de 50 a 54 e 60 a 69 anos, as mulheres apresentam predomínio ligeiramente maior.
Os números mostram um padrão observado mundialmente: mulheres tendem a ser diagnosticadas mais tardiamente. Segundo outro levantamento do Hospital das Clínicas de São Paulo, 80% das mulheres autistas chegam à vida adulta sem diagnóstico.
O tema da campanha deste ano dialoga diretamente com a trajetória de Luana, que construiu sua autonomia mesmo diante das dificuldades. “Sempre tentei provar para mim mesma que sou capaz. Já morei sozinha, trabalho, cuido da minha rotina", ressaltou.
"Quero ser sempre melhor do que fui ontem. Dá trabalho, mas é possível desenvolver autonomia e qualidade de vida. E é importante lembrar que autistas existem também na vida adulta, não só na infância”, complementou Luana.
REDE DE APOIO
De acordo com o Panorama do Censo 2022, 6,3% dos munícipes possuem algum tipo de deficiência, enquanto 1,3% têm diagnóstico de TEA. A inclusão dessas pessoas é prioridade para a Coordenadoria de Defesa de Políticas Públicas para a Pessoa com Deficiência (Codep), vinculada à Secretaria da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos (Semulher), e para o Conselho dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Condefi).
“O tema deste ano mostra que cada pessoa com TEA tem seu modo de ser, de se comunicar e de se desenvolver. É no reconhecimento dessas singularidades que a autonomia se constrói. Não é um ponto de chegada individual, mas uma construção coletiva e multidisciplinar. É resultado de uma rede que sustenta, de políticas públicas que garantem direitos e de uma cultura que respeita as diferenças”, destaca a titular da Codep, Cristiane Zamari.
CONFIRA ALGUMAS DAS PRINCIPAIS INICIATIVAS VOLTADAS A ESSE PÚBLICO EM SANTOS:
CARTEIRA DE IDENTIFICAÇÃO E COLAR GIRASSOL:
Facilitam o reconhecimento de pessoas com deficiências não visíveis. Santos já emitiu cerca de 3 mil carteiras.
PROTESOM:
Ação que distribui abafadores de ruído para pessoas com hipersensibilidade auditiva. Desde dezembro de 2024, já foram entregues 1.600 dispositivos.
CENTRO DE REABILITAÇÃO E ESTIMULAÇÃO DO NERUDESENVOLVIMENTO:
Inaugurado em 2020, a CREN - Clínica Escola do Autista é a primeira unidade 100% SUS do Brasil voltada exclusivamente ao atendimento de pessoas com TEA de todas as idades. O encaminhamento é feito via policlínica.
CLÍNICA DE NEURODESENVOLVIMENTO (CAPEP-SAÚDE):
Oferece suporte multidisciplinar em um espaço com mais de 500 metros quadrados, voltado ao tratamento do autismo e outras condições do neurodesenvolvimento.
CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (CAPS):
Oferecem atendimento e medicação para pacientes com necessidades específicas, incluindo alguns casos de TEA e deficiências intelectuais.
POLO DE EMPREGABILIDADE INCLUSIVO (PEI):
Iniciativa que busca inserir pessoas com deficiência no mercado de trabalho e orientar empresas na contratação.
SELO 'EMPRESA ACESSÍVEL':
Certificação que reconhece serviços e estabelecimentos comerciais que garantem acessibilidade a pessoas com deficiência.
PROJETO TAMTAM:
Referência em inclusão e saúde mental, oferece cursos de arte, cultura e expressão.
VILAS CRIATIVAS:
Espaços distribuídos pela Cidade que promovem atividades de socialização e desenvolvimento motor.
ESPORTES:
A Secretaria de Esportes, por meio da Seção de Esportes Adaptados, oferece atividades esportivas para pessoas com deficiência e TEA durante todo o ano. As ações incluem eventos, festivais, práticas inclusivas e modalidades adaptadas. Há opções como basquete, natação, hidroginástica, musculação, ciclismo e vivências nos esportes náuticos, além de projetos itinerantes nos bairros.
Santos terá Caminhada de Conscientização do Autismo
Para celebrar a data e o Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, Santos promove, no domingo (5), às 10h, a Caminhada de Conscientização do Autismo “Autonomia se constrói com apoio”.
Com concentração em frente aos quiosques do Canal 6 e chegada na Fonte do Sapo, a ação reunirá participantes em um momento de mobilização, inclusão e informação.
Camisetas gratuitas serão distribuídas na concentração, das 9h às 10h, conforme disponibilidade de tamanhos.
Esta iniciativa contempla os itens 10 e 16 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU: Redução das Desigualdades e Paz, Justiça e Instituições Eficazes. Conheça os outros artigos dos ODS.