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Do comércio tradicional às ruas pacatas e ao samba, bairro de Santos completa 67 anos

Publicado: 13 de junho de 2021
14h 56

Andressa Luzirão

Morar muito tempo no mesmo bairro faz qualquer um se tornar íntimo do território e das pessoas, a ponto de saber os nomes da vizinhança e acumular histórias com os lugares. Assim acontece com o fotógrafo Marcelo Martins, 56 anos, que mora no Marapé desde que nasceu, bairro que completa 67 anos neste domingo (13), unindo comércio tradicional e intenso à atmosfera pacata e à cultura pulsante do samba.

Se o nome do bairro tem origem indígena – em tupi-guarani significa ‘caminho do mar’, Marcelo é desses caminhantes que percorre o bairro não só até a praia, mas também pelas ruas do seu interior que diz ter características próprias. “Se as vias recebessem nomes pela largura, o Marapé só teria avenidas, pois as ruas são largas. E você pode circundá-lo e ver que ainda há preservada nas pessoas a tradição de colocar cadeiras de praia na calçada durante o verão”.

E é caminhando pelas ruas, como um guia de turismo, que ele narra sobre as antigas casas, o comércio tradicional e o emergente, bem como sobre os antigos moradores que marcaram sua história de vida - dona Ruth, sr. Emídio, sr. Toninho e Chiquinho, seu amigo de adolescência, todos já falecidos. Prosear sobre o bairro com ele é voltar à época do jogo de taco e da bola na lateral da rua da Igreja São Judas Tadeu e de tantas histórias nessa relação com o lugar. “Eu ficava no canal da Moura Ribeiro, pulava Carnaval com a turma dos Cobras e frequentava as domingueiras do Portuários”, lembra.

Foi no bairro que estudou na escola municipal Lobo Viana e também foi ali que criou a filha Marcella, hoje com 21 anos. Para ele, nem é preciso sair do bairro, já que ali tem tudo, conta: “Padaria, mercado, sorveteria, hamburgueria, comida japonesa, açougue, peixaria, sapataria, loja de roupa, de brinquedo, samba, chorinho. Você consegue passar um fim de semana alegre sem sair do bairro. É espetacular”.

PONTOS DE REFERÊNCIA

Qualquer santista conhece os pontos de referência ali existentes como o Cemitério Memorial Necrópole Ecumênico, um dos maiores do mundo; as escolas de samba União Imperial e Real Mocidade; a Igreja São Judas Tadeu, inaugurada em 1954; a Associação Atlética dos Portuários, o maior clube em área de Santos, e o comércio intenso da Rua Carvalho de Mendonça. O Marapé reúne ainda tradicionais comércios de Santos como as padarias Portinari e Marapão e a pastelaria Bom Pastel, esta última na Rua Saturnino de Brito.

“Meu pai tomava garapa quando o Bom Pastel era um trailer na esquina. Na época era só pastel e caldo de cana”, recorda Marcelo. No tradicional Mercado do Marapé, quando criança, o fotógrafo ia sempre com sua mãe, já falecida, fazer compras. “Ela me buscava na escola e passava ali para comprar itens para o almoço”.

O equipamento localizado na Avenida Pinheiro Machado (canal 1), esquina com a Rua D. Duarte Leopoldo e Silva, foi inaugurado em 1954 e tem como destaque um painel feito em pastilhas pelo artista Clóvis Graciano, que revela aspectos da antiga comercialização de produtos.

O bairro ainda conta com equipamentos públicos como policlínica e as escolas municipais José da Costa Barbosa, Alcides Lobo Viana, Padre Francisco Leite e a subvencionada Menino Jesus.

DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

O historiador da Fundação Arquivo e Memória de Santos (Fams), José Dionísio de Almeida, explica que a formação do Marapé começa de forma mais efetiva a partir da década de 1940, como ocorre com a ocupação dos bairros que vão se formando depois da década de 1920 na direção do Monte Serrat à praia, com o adensamento do Centro depois da inauguração da Estrada de Ferro São Paulo Railway Company. A data, 13 de junho de 1954, é referente à inauguração da Sociedade de Melhoramentos do Marapé.

“Mas antes já havia moradores no local. Havia muitos imigrantes japoneses que tinham plantações de legumes. O bonde 37 passava pelo bairro e era uma referência aos moradores”.

Quem lembra bem disso é um dos mais antigos comerciantes locais, Flávio Soares de Oliveira Gomes, 74, proprietário da loja Sol Nascente, de material de construção, existente há 86 anos na Av. Pinheiro Machado, 850, esquina com a Av. Moura Ribeiro. “Aqui era o ponto final dos bondes 37 e 23. Desde moleque já trabalhava com meu pai, tenho raízes aqui. O bairro cresceu bastante”. No caixa, ele mantém um foto de 1940 da frente do estabelecimento iniciado com o pai em 1935.

“É um orgulho ter esse comércio no bairro. Assim como meu pai passou a loja para mim, a clientela também passa de geração para geração. A maioria dos clientes são amigos e há quem passe aqui só para bater papo”, conta o comerciante, que acompanhou a transformação do bairro com os novos empreendimentos imobiliários.

DEVOÇÃO A SÃO JUDAS

Há três anos e quatro meses à frente da Igreja São Judas Tadeu, Antonio Alberto Finotti, 74, o padre Toninho, destaca que a paróquia é um referencial para a comunidade do bairro, principalmente para os católicos que procuram a igreja para celebrações, atendimentos e atividades sociais. A devoção a São Judas Tadeu também atrai pessoas de outros bairros da Cidade. “Muita gente vem pagar promessa. Há uma forte devoção popular a São Judas. É um santo padroeiro que tem seu dia em 28 de outubro. Então, todo dia 28 muita gente vem aqui”, diz ele, contando que há um projeto para que a igreja se transforme em Santuário São Judas Tadeu. “Como morador, me sinto em casa. É uma comunidade muito familiar”, completa.

NA BATIDA DO SAMBA, UM BAIRRO FELIZ DA VIDA

A história de Heldir Lopes Penha, o Aldinho, 63, da Velha Guarda da União Imperial, se confunde com a própria história do bairro e da escola de samba. Afinal, ali ele nasceu e tem o samba no sangue – o pai foi presidente dos blocos carnavalescos do bairro Dengosas do Marapé e Embaixada de Santa Tereza. Além disso, Aldinho foi, por 15 anos, presidente da União Imperial, onde também tocou na bateria.

“É um bairro festeiro, um bairro do samba pulsante. A 9 de Julho é a rua do samba, em frente ao Ouro Verde, onde vários sambistas se apresentam. Aqui tem tudo, é um bairro feliz da vida”, afirma ele, destacando ainda os times de futebol de várzea como o Real Colorado e Esporte Clube Curvão, além da tradição de clubes de bocha. Menciona ainda personalidades que moraram no bairro como os sambistas Luiz Américo e Graciano Pacheco de Matos e o falecido artista Serafim Gonzalez. “Muita gente boa nasceu e viveu no Marapé”.

Galeria de Imagens

interior do mercado do marapé #paratodosverem
fachada do mercado do marapé #paratodosverem
uma das praças do bairro #paratodosverem