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Cuidadores de idosos em Santos dividem experiências e aflições  

20 de setembro de 2019
18h 53

“Tenho pena da senhora, porque está com uma bomba na mão”. Esta foi a frase que Celinalva Souza Escobar ouviu há cerca de quatro anos de um neurologista, após seu marido ser diagnosticado com a doença de Alzheimer. Apesar de toda a pressão negativa que uma frase dessas poderia causar, Celinalva aceitou bem a notícia, pois entende que não aceitar seria pior.

Conforme o tempo passou, no entanto, ela sentiu o peso da responsabilidade de cuidar de alguém que, além da memória, estava perdendo autonomia para realizar qualquer atividade. Ela começou a se sentir angustiada e, ao dedicar-se integralmente ao marido, deixou de olhar para si mesma. Foi então que procurou ajuda no grupo ‘Quem Cuida de quem Cuida?’, realizado às quintas-feiras, às 14h, no Ambulatório de Especialidades do Centro (Ambesp) e que completa uma ano em outubro.

“Encontrei equilíbrio com pessoas que já passaram ou passam o mesmo que eu. Falo sem medo de me expor, de me emocionar e sabendo que não há julgamentos. Antes, eu chorava”, afirma Celinalva.

A psicóloga Corina Lopes Ribeiro é a idealizadora e coordenadora do grupo, formado por pessoas que cuidam de pacientes com doença de Alzheimer ou outras demências. Durante uma hora e meia, os participantes conversam sobre o dia a dia no cuidado do paciente: as situações mais comuns, como costumam agir, as aflições, medos, entre outros aspectos. Os participantes trazem os temas para o grupo de forma espontânea. Para participar, não é necessário se inscrever.

 

ACOMPANHAM

Idosos que tenham um quadro de demência leve e moderado podem acompanhar os seus cuidadores. Durante a reunião, são atendidos em outra sala por estagiários do curso de Psicologia, que conduzem atividades por meio de músicas, jogos, fotografias e sensações que os conduzem às suas memórias. Ao fim das reuniões, todos se reúnem para compartilhar as atividades realizadas.

“A doença de Alzheimer atinge não só o paciente, mas toda a família. Esse cuidador esquece de si mesmo para cuidar do outro e pode entrar em um processo de adoecimento. O grupo fala de questões relacionadas ao cuidado mas chama os cuidadores a falarem da existência deles também”, destaca Corina. 

Antonio Carlos Monteiro já morava com a mãe, de 86 anos, mas tornou-se cuidador dela há sete anos, quando o diagnóstico da doença de Alzheimer foi dado à família. “É necessário ter muita paciência e não ser egoísta, até deixar de fazer algumas coisas por alguém que um dia cuidou de você”.

Já a mãe de Márcio Venâncio Gil está em uma casa de repouso. Mesmo não desempenhando os cuidados com a mãe integralmente como no início, há um ano, ele não deixou de participar das reuniões do ‘Quem Cuida de Quem Cuida?’. O objetivo é acolher quem está no grupo e levar esta experiência para ajudar outros familiares que visitam os parentes na instituição onde se encontra a sua mãe. 

“Neste programa, eu encontrei o meu norte. Me sentia fragilizado e sozinho e aqui você pode aproveitar a solução encontrada pelo outro para aplicar em casa. Convido a todos que sejam cuidadores que dividam a sua aflição conosco. Não podemos entrar na mesma toada do familiar para não adoecer”, destaca.

 

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