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Arte urbana conta história e transforma o olhar dos santistas

3 de maio de 2021
11h 29

Andressa Luzirão

Não se trata apenas de dar cor a espaços públicos, mas dar novos significados a eles, conectando a história local com os moradores e modificando o olhar das pessoas em meio à agitação da vida moderna e aos tempos difíceis de pandemia. Foi esse propósito que inspirou o artista plástico Daniel Alves Fernandes, o Drosh, 43 anos, a pintar, ao lado de outros três artistas convidados por ele, um muro de 220m² da Rua Dr. Amilcar Mendes Gonçalves com Rua Oswaldo Cruz, no Boqueirão, por meio da linguagem da arte urbana.

Quem por ali passa encontra uma obra de arte a céu aberto, que retrata a história do bairro em elementos como Pinacoteca Benedito Calixto, Tênis Clube, Colégio Stella Maris e Supercentro do Boqueirão. Também há a imagem do poeta Vicente de Carvalho, do arquiteto João Artacho Jurado, que projetou o edifício Verde Mar, na orla, de arquitetura moderna, e o antigo casarão onde morou o comendador Júlio Conceição, uma chácara conhecida como Parque Indígena com mais de 90 mil orquídeas e plantas exóticas. Hoje, um prédio residencial. Há ainda o relógio do sol, as tradicionais muretas e a praia do Boqueirão.

“O intuito é contar a história dos bairros por meio da arte urbana, retratando pessoas comuns e personalidades. Eu não queria somente colorir os espaços, mas mexer com as pessoas. As artes visuais ganharam muito espaço na pandemia. É um momento sombrio que vivemos e, nas obras, trago uma mensagem subliminar, uma palavra de fé e esperança. Gosto de arte com mais contexto”, diz Drosh.

COMUNHÃO E PERTENCIMENTO

Mencionando o escritor Leon Tolstói, que considera “a arte um dos meios de comunhão entre as pessoas”, Drosh ressalta que ela é uma linguagem “universal e divina”. “A arte ressignifica espaços e, por si só, transforma, muda o olhar das pessoas em meio à vida agitada e espaços e vias públicas sem vida. A ideia é também trabalhar o pertencimento”, acrescenta o santista, que trabalha há 25 anos com artes plásticas e tem 11 intervenções de arte urbana espalhadas em pontos diferentes da Cidade.

Prevista para ficar pronta até a próxima quarta-feira (5), a obra ainda faz referência ao prédio da casa noturna Moby Dick e ao Bazar 5 de outubro, existente há 110 anos na Rua Epitácio Pessoa, próximo à Avenida Conselheiro Nébias. Toda a obra tem ainda as mãos do professor de artes Vladiner Sibrão, o Colante, e dos grafiteiros Edgar Vieira, o Pesado, e Thiago Viana Gallina, o Amorodio.

MÃOS DE ‘PESADO’

No universo do grafite, há personagens e estilos de letra. É este último que caracteriza o trabalho de um dos artistas convidados para compor o mural com sua arte, o Pesado, santista, formado em fotografia e fundador do Coletivo aFase!, dedicado a atividades relacionadas ao mundo da arte urbana e do skate. Ele desenhou o nome do bairro e da Cidade nas cores laranja, preto, roxo, cinza e branco. “A leitura do grafite é para ser vista de longe. Quem olha vê Santos por baixo e o nome do bairro na frente, como se fosse uma transparência das duas letras”, explica Pesado.

A obra integra seu projeto chamado série Bairros de Santos. E é com spray de tinta nas mãos que ele expressa sua arte para o mundo. Literalmente: seus trabalhos estão espalhados em cidades como Barcelona (Espanha), Manresa (Espanha), Lisboa (Portugal), Ericeira (Portugal), Berlim (Alemanha), Damstraat (Amsterdam - Holanda), São Paulo, Santos, Praia Grande, entre outras.

“A ideia surgiu de uma coleção de roupas de uma loja sobre bairros de Santos. Eu queria levar para o muro essa ideia e comecei a série dos bairros em 2016, em Portugal. Sempre gostei de fazer letras”. No Município, suas obras estão nos bairros Gonzaga, Marapé, Nova Cintra, Embaré, Ponta da Praia, Boqueirão e Vila Belmiro. Ele explica que é uma identificação local por meio do grafite. “Além de divulgar nossa Cidade, divulgamos a arte do grafite e as pessoas se identificam por ser o bairro delas. Quem não é daqui fica conhecendo mais. Quanto mais arte na Cidade, melhor”.

ORLA

Além da obra no Boqueirão, outras duas estão sendo criadas por Drosh na praia, na parte externa das casas onde são guardados equipamentos da Secretaria de Serviços Públicos (Seserp) para manutenção dos jardins. Uma ao lado do posto 4, que fará menção ao Porto de Santos, e outra em frente à igreja do Embaré, retratando igrejas como Nossa Senhora do Monte Serrat, Coração de Maria e Valongo. Nesses locais, as obras também devem ser concluídas na próxima semana.

As três intervenções são uma realização do projeto Tela de Rua, idealizado por Drosh, com apoio da Prefeitura, ao custo de R$ 14.700. O mural que homenageia o bairro Boqueirão tem curadoria e arte de Drosh e produção da L.M Produções, e conta com os seguintes colaboradores: Oficina 36, Storm comunicação, Escola Técnica Treinasse, DU Simões foto e vídeo, BR galeria, Restaurante Surf Dog, Restaurante Santa Rita, Batatão das Tintas e Colorgin Arte Urbana.

PAINEL NA SUBPREFEITURA ZNO

Drosh ainda doará um painel que está criando na fachada da Subprefeitura da Zona Noroeste, que fará referência às crianças, muretas e Zona Noroeste. Outros cinco espaços da Cidade têm obras suas realizadas em parceria com a Prefeitura - morros São Bento e José Menino, passarela do túnel e duas no Marapé. Ele também realizou intervenções em locais da Ponta da Praia, Zona Noroeste e Lagoa da Saudade, este último com a participação de 11 artistas da região e quatro de São Paulo.

TELA DE RUA

As obras integram o projeto Tela de Rua, idealizado por Drosh, que tem como objetivo colorir espaços e vias públicas, conectando as pessoas com a arte em uma exposição aberta a todos, provocando emoções e vivências culturais. Cada mural tem um QR Code e as pessoas podem se conectar ao perfil do projeto no Instagram (@teladerua).

Fotos: Anderson Bianchi e Marcelo Martins

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