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Saturnino de Brito: um legado para Santos muito além dos canais

Publicado: 6 de janeiro de 2026 - 14h40

Francisco Saturnino Rodrigues de Britto, ou apenas Saturnino de Brito, nasceu em 14 de julho de 1864 e morreu em 10 de março de 1929. Considerado o patrono da engenharia sanitária no Brasil, tem em Santos o maior acervo de toda sua obra criadora. Tudo começou em 1898, momento crítico em que a Cidade sofria com a morte de milhares de pessoas vítimas de doenças sanitárias, principalmente a febre amarela, e de constantes inundações. Naquela época, Saturnino de Brito elaborava um projeto para Petrópolis (RJ) e, ao mesmo tempo, esboçava um plano para Santos. A seguir, um resumo de várias realizações do especialista. 

Saiba mais:

PREOCUPAÇÃO ANTIGA COM EXPANSÃO

1- Neste esboço, Saturnino de Brito já enfatizava a importância das obras de drenagem, abrangia até mesmo os morros da Cidade, imprescindível para a ocupação dos terrenos úmidos em direção à orla. Ele mostrava preocupação com a expansão urbana e divergia dos projetos propostos até aquele momento.

NOVO ARRUAMENTO 

2. Ele também estabeleceu uma relação entre águas pluviais dos arrabaldes e dessecamento dos terrenos úmidos, pensando no novo arruamento para a Cidade. Afirmava que o plano da Câmara deveria ser substituído por outro, incluindo uma série de ruas atravessando em diagonal as que cortavam em ângulos retos. Estas diagonais encurtariam as distâncias, mantendo a boa circulação do ar e trazendo novas belezas à “progressista cidade de Santos”.

SISTEMA SEPARADOR ABSOLUTO

3.  Em 1905, Saturnino passou a comandar uma comissão criada pelo Governo do Estado para dar fim aos problemas sanitários em Santos. Foi o responsável pela criação de uma nova rede de esgotos para a Cidade, adotando o “sistema separador absoluto” (implantado posteriormente em diversas cidades do Brasil e do mundo), um plano para afastar as águas pluviais do esgoto, que passariam por encanamentos subterrâneos com destino a estações de tratamento. Para a água coletada das chuvas e rios, nasce o projeto dos canais, que também contribuiria para a diminuição dos alagamentos.

OS CANAIS

4.  O projeto dos canais cortando a Cidade, ligando suas artérias até o mar, teve a primeira obra iniciada em 1907 (onde hoje está a Avenida Pinheiro Machado), e a segunda (Canal 2), na Avenida Bernardino de Campos, em 1910. Posteriormente foi projetado o Canal 6 (1919. O 3 e o 4 vieram em 1923, o 5 em 1927. O Canal 7, em 1968.

MAIS CANAIS

5-  Na verdade, o projeto de Saturnino de Brito incluiu a construção de um total de nove canais superficiais (os seis da orla, aquele próximo ao Orquidário, o da Rua Moura Ribeiro, no Marapé, e outro da Rua Francisco Manoel, no Jabaquara). Há ainda os subterrâneos, entre eles um na Rua Braz Cubas, no Centro. A Prefeitura completou o sistema de drenagem com os canais 7 (1968), o do final das avenidas Afonso Pena e da Jovino de Melo, na Zona Noroeste, entre outros.

USINA DE ESGOTO

6- . A Usina de Esgoto do José Menino, conhecida como Usina Terminal ou Casa Rosada, foi construída em 1912, juntamente com as estações elevatórias (Porto e Conselheiro Nébias), como parte do sistema coletor de esgoto idealizado por Saturnino Brito, que concluiu o projeto em 1909. Dali, os esgotos seriam bombeados até a Ponta de Itaipu, em Praia Grande, para serem lançados ao mar.

PONTE EM SÃO VICENTE

7- A Ponte Pênsil foi idealizada em 1910 por Saturnino de Brito para dar suporte a um duto de esgoto de Santos e São Vicente até o Oceano Atlântico, no Forte de Itaipu. Foi inaugurada em maio de 1914. É uma das primeiras pontes suspensas do Brasil.

CÓDIGO DE OBRAS

8 - Em 1906, Saturnino afirmou que parte das obras só poderia ser executada segundo princípios sanitários rigorosos, um conjunto de regras e leis que seriam aplicadas pelo poder local, como cadastro dos esgotos domiciliares. Indicou leis inovadoras, que distinguiam e facilitavam as desapropriações, e a Lei Municipal nº 288 de 1907, um dos primeiros regulamentos que instituíram o setor de aprovação de obras. Exigia que as plantas fossem submetidas à Comissão e defendia uma espécie de manual de uso para um novo tipo de habitação. Santos aprovou o primeiro código de obras em 1921, incorporando toda a concepção do período do urbanismo sanitarista deixado por Brito.

CONCRETO ARMADO NOS CANAIS

9 -  Já em 1898, Saturnino de Brito falava da utilização do concreto armado nos canais e discordava do emprego da alvenaria para os esgotos. Em pouco mais de quatro anos, ele executaria toda a extensão do Canal 1 e alguns trechos dos outros canais, além do coletor geral de esgotos e da rede complementar. A utilização do concreto armado para os tubos coletores era uma novidade que teve a sensibilidade de desenvolver. Não somente o cimento trouxe eficiência às obras, mas o desenvolvimento de diversos materiais e sistemas construtivos como, por exemplo, o processo de assentamento das manilhas cerâmicas de esgoto.

SISTEMA DE COMPORTAS

10- Também foram previstas para os canais as comportas - um sistema de dispositivos para permitir que, em dias de chuva, a água dos canais cheios fosse liberada gradualmente para não destruir as praias e, no sentido contrário, em maré alta, que a água do mar não invadisse a Cidade.

IDENTIDADE PAISAGÍSTICA

11 - O projeto dos canais trazia uma identidade paisagística muito marcante e à medida que o engenheiro os construía, ia instalando simultaneamente um sistema de arruamento, que os acompanhava, lançando assim eixos estruturantes, além dos já existentes da Avenida Conselheiro Nébias e da Avenida Anna Costa e de onde derivariam ruas menores. No seu plano estavam previstas avenidas grandes para circulação de ar, arborizadas e com canteiro central.

BOA RELAÇÃO

12 - Até 1912, Brito construiria boas relações com os políticos locais, ganhando adeptos voluntários à execução do plano. Embora Brito só encaminhasse a planta da Cidade à Câmara em 1910, já em 1906, apresentava uma lei que a previa. As boas relações que ainda mantinha permitiram-lhe desenvolver as obras nos primeiros anos de trabalho. Os terrenos levantados estavam sendo cedidos gratuitamente pelos proprietários para a execução dos canais de drenagem e as extensas avenidas laterais. Todos eram os futuros loteadores interessados na expansão urbana que naturalmente valorizaria seus terrenos.

ÁREAS VERDES X LOTEAMENTOS

13  - Em 1910, com os canais construídos, a ocupação ganha novo impulso e passa a se expandir dos bairros do Centro em direção à orla e zona leste, provocando também valorização imobiliária. E esse acaba sendo o motivo de sua planta não ser aprovada pela Câmara. Seu modelo definia traçados de ruas e loteamentos e previa um sistema de áreas verdes e livres, delimitando diversos espaços verdes em detrimento de possíveis áreas para loteamentos particulares.

DESAPROPRIAÇÕES CAUSAM CONFLITO

14 - A grande quantidade de desapropriações conflitava com uma enorme gama de interesses, principalmente os especuladores imobiliários, o que acabou impedindo a ideia de avançar. No final da briga, Saturnino perdeu a queda de braço e não conseguiu emplacar sua proposta de forma absoluta.

AFONSO PENA

15 - Uma grande novidade da planta de Saturnino e muito contestada na época foi a Avenida Afonso Pena, que corta a Cidade de Leste a Oeste. A planta acabou orientando o crescimento de Santos e, com o traçado diagonal acompanhando a curva do canal do estuário, a via é até hoje o principal corredor de comunicação entre a Encruzilhada e o cais.

JARDINS DA ORLA

16 - Em 1914, Saturnino em sua planta já idealizava os jardins da orla. Na década seguinte, começaram a surgir áreas ajardinadas em frente aos hotéis e, nos anos 1930, foi construído o primeiro trecho dos jardins. Mas seu traçado atual, curvilíneo, data de 1960, então sob a batuta do arquiteto Armando Martins. Hoje, é o principal cartão-postal da Cidade, reconhecido pelo Guinness World Records como o maior jardim frontal de praia do mundo, com extensão de 5.335 metros. 

ORQUIDÁRIO

17- Inaugurado em 1945, o Orquidário foi idealizado ainda em 1903, quando Saturnino previu a desapropriação de terrenos para facilitar o acesso à Usina de Tratamento e para a construção de uma grande área verde no entorno da estação de esgoto no José Menino. O terreno foi desapropriado em 1909 e doado pelo Estado à Prefeitura em 1914. Ele não imaginaria que aquele espaço seria ocupado para reunir a imensa coleção de orquídeas e outras plantas nativas deixada pelo comendador Júlio Conceição após sua morte (em 1938), no Parque Indígena, que era considerado na época o maior orquidário ao ar livre do mundo.

PALÁCIO SATURNINO DE BRITO

18 - O atual Palácio Saturnino de Brito, sede desde 1973 do escritório regional da Sabesp, foi em sua primeira versão, em 1903, um ‘sobradão de dois andares” para ser a sede da Comissão de Saneamento liderada por Saturnino. Com o avanço dos trabalhos, em 1919, o local foi ampliado. Em março de 1929, os santistas receberam com muita tristeza, a notícia da morte do engenheiro, aos 65 anos. A Repartição de Saneamento de Santos via a necessidade de mais uma vez ampliar seu espaço e transformou a edificação da Avenida São Francisco. Sob a batuta do engenheiro Egydio José Ferreira Martins, o projeto do novo prédio foi minuciosamente pensado, com acabamento que estivesse à altura das mais badaladas edificações públicas da cidade santista, como a Bolsa do Café (1922), o prédio dos Correios (1924) e da nova Alfândega (1934). Em 2009, a parte nobre do prédio (hall de entrada e salas adjacentes) passou a ser utilizada como área expositiva para o Museu do Saneamento, onde estão guardados os valiosos documentos e maquinário do tempo de Saturnino de Brito.

HOMENAGENS

19. Em Santos, são várias homenagens: uma rua com seu nome, desde 1929, no Marapé. Também há uma ponte entre o Canal 1 – Av. Pinheiro Machado - e a Av. Floriano Peixoto com seu nome; e uma estátua nos jardins da praia do José Menino, próximo ao Canal 1, em que ele aparece de pé, abrindo um mapa, mostrando o planejamento dos canais. Na sede da Sociedade Amigos da Cidade há um retrato de Saturnino e todas as suas obras (24 volumes) foram doadas à Biblioteca Municipal. Também foi criada a Medalha Saturnino de Brito.

CANAIS VIRAM CARTÃO-POSTAL

20 - Hoje, os canais são ponto de referência na Cidade tanto para turistas, como – principalmente – para moradores. Também viraram cartão-postal da Cidade e foram tombados como patrimônio cultural pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) e pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). O tombamento pelo Condepasa ocorreu em 2007, enquanto o Condephaat também reconheceu a importância cultural dos canais como símbolos da engenharia sanitária e da Cidade.