Maio Laranja: Santos articula ações de combate à violência sexual infantojuvenil
Caterina Montone
Quando somos pequenos sonhadores, costumamos desenhar o que há de mais bonito na vida: nuvens sorridentes, arco-íris e as pessoas que amamos. Mas, para quase 3 mil crianças e adolescentes vítimas de abuso e violência sexual, entre janeiro e março deste ano, no Estado de São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, esses desenhos deram lugar a denúncias - e à saudade de uma inocência interrompida.
É uma dura realidade sentida nesta segunda-feira (18), Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

O tema ganha força com a campanha Maio Laranja, que, em Santos, integra leis já sancionadas que garantem a intensificação de ações preventivas, como a Lei Municipal nº 2.981, de 2014.
A Cidade reúne iniciativas e programas voltados à conscientização e ao acolhimento das vítimas.
Neste mês, a programação inclui caminhada, mostra cultural e o Bonde da Conscientização. Confira aqui.
ACOMPANHAMENTO
O Programa de Atenção Integral às Vítimas de Violência Sexual (Paivas), da Secretaria Municipal de Saúde, é um dos pilares desse acolhimento. Desde 2023, recebe encaminhamentos via UPAs e unidades básicas, oferecendo atendimento médico e psicossocial a pessoas de todas as idades.
O serviço atende cerca de dez casos por semana: em 2025, foram 101 menores encaminhados (56 crianças e 45 adolescentes) e, neste ano, já são 29 atendimentos.

Segundo a equipe, cerca de 90% dos casos envolvem pessoas muito próximas das vítimas, como pais, padrastos e avós. Não há idade ou região que delimite os casos: já houve atendimento a bebês de apenas um ano, cuja violência foi percebida pela mãe a partir de mudanças de comportamento.

Para ajudar os pequenos a se expressarem, o atendimento utiliza abordagens lúdicas. Desenhos e pinturas tornam-se instrumentos terapêuticos essenciais para que a criança consiga comunicar sentimentos difíceis de verbalizar e acompanhar a evolução do tratamento.
“É uma forma de projetar e colocar para fora o que está doendo. Lembro de uma menina bem pequena que pintou a folha toda de preto para mostrar o que estava sentindo. É algo que me marcou desde o início”, relata a coordenadora de Controle de Doenças Infectocontagiosas, Michelle Cunha.
Durante o acompanhamento, crianças e adolescentes são incentivados a retomar sonhos, vínculos e atividades que promovam bem-estar, em espaços onde o girassol é o personagem central.

A flor, símbolo da campanha, representa a luz que precisa ser lançada sobre uma realidade muitas vezes silenciada.
“Quando a pessoa está sendo acompanhada, percebemos a diferença ao longo do processo. Nosso objetivo é acolher da melhor forma possível e contribuir para a reconstrução da felicidade”, afirma a chefe Livia Rother.
PROTEÇÃO
Outro importante elemento nessa linha de frente é a Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência Sexual Infantojuvenil (Ceviss). Com o objetivo de articular e fortalecer a rede de proteção, o colegiado reúne representantes do poder público e da sociedade civil para planejar, acompanhar e monitorar políticas de prevenção e atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
A comissão também participa ativamente de campanhas permanentes de prevenção, em articulação com as secretarias de Saúde, Educação e Desenvolvimento Social.

“O maior desafio hoje no enfrentamento da exploração sexual de adolescentes está no ambiente digital. As políticas públicas foram estruturadas para o mundo físico, mas a exploração migrou para as redes sociais e jogos online, o que dificulta o monitoramento, a prevenção e a educação sobre os riscos. O ECA Digital vem para fortalecer esse enfrentamento”, explicou a coordenadora da Ceviss, Christiane Andréa.
Ela ainda relembra a motivação da campanha marcada pelo 18 de Maio. A data foi instituída em memória do Caso Araceli, que se tornou símbolo da luta contra a violência sexual infantojuvenil no País.
Com uma rede de proteção ativa e integrada, Santos desenvolve ações que vão da educação à saúde, do esporte à cultura, da proteção social à prevenção de violações de direitos, atendendo diferentes necessidades e realidades.
Confira algumas:
GARANTIA DE DIREITOS
O Departamento de Direitos Humanos e Cidadania (Depacid) e a Coordenadoria da Infância e Juventude (Cojuv) - ambos ligados à Secretaria da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos (Semulher) - articulam políticas públicas intersetoriais, fortalecendo a conscientização, a proteção integral e a garantia dos direitos de crianças e adolescentes, com compromisso permanente.
O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) é órgão deliberativo e fiscalizador desses direitos. Já o Núcleo Integrado de Articulação e Atendimento (NIA-CA) complementa a rede com a capacitação de profissionais das áreas de saúde, educação e assistência social.
CONSELHOS TUTELARES
Atuam na linha de frente da garantia de direitos, recebendo denúncias e protegendo crianças e adolescentes em situação de risco em diferentes regiões da Cidade, como parte essencial da rede de proteção.
EDUCAÇÃO
Alunos participam da jornada ampliada, com atividades culturais, esportivas e artísticas. Projetos como o Grêmio Estudantil estimulam o protagonismo e a cidadania, enquanto o programa Santos Jovem Doutor, em parceria com a USP, promove ciência, prevenção e saúde, formando estudantes multiplicadores de conhecimento.

CONVIVÊNCIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL
O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), vinculado aos Centros de Convivência e aos CRAS, desenvolve atividades para fortalecer laços familiares e comunitários. Entre os equipamentos, destaca-se o novo Centro de Convivência Rádio Clube, reformado e ampliado para atender a comunidade com atividades artísticas e lúdicas.
ABRIGO PARANÁ
Oferece acolhimento temporário a mulheres em situação de risco social e seus filhos, com suporte psicológico, social e encaminhamento para capacitação profissional.

SEMANA DO BRINCAR E DA JUVENTUDE
A Semana do Brincar ocupa espaços públicos com atividades lúdicas e educativas, reforçando o brincar como um direito. Já a Semana da Juventude promove debates, oficinas e ações culturais voltadas ao protagonismo jovem.
Esta iniciativa contempla os itens 3, 4 e 16 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU: Saúde e Bem-Estar, Educação de Qualidade e Paz, Justiça e Instituições Eficazes. Conheça os outros artigos dos ODS.
Fotos: Francisco Arrais, Carlos Nogueira, Henrique Teixeira e divulgação