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Sensibilizar a sociedade é desafio para doação de órgãos

27 de setembro de 2018
11h 00

Em julho de 2016, o funcionário público Daniel Nathan Ribeiro Andrade passou por um momento de intensa dor: a morte da mãe. Em meio à tristeza, ele autorizou a doação dos órgãos e tecidos dela. Córneas, pele, fígado, rins e pâncreas foram destinados a outras pessoas.

“Não me recordo dela nunca falar comigo ou com meu padrasto sobre a doação, mas a conhecendo tenho total certeza de que não se incomodaria. Autorizei pela vontade que ela sempre teve de ajudar as pessoas. Incentivo totalmente a doação. É uma maneira de perpetrar o bem que seu ente querido tenha feito em vida, de dar uma nova oportunidade ao próximo”, destaca Daniel.

O Dia Nacional do Doador de Órgãos, celebrado nesta quinta-feira (27), é uma data que visa, entre outros aspectos, sensibilizar a população brasileira sobre este tema. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes (ABTO), a não autorização familiar para doação de órgãos, no primeiro semestre de 2018, foi de 43% no Brasil.

Em Santos, a Seção de Captação e Transporte de Órgãos e Tecidos, da Secretaria de Saúde (Secapt) é a responsável pela identificação e notificação da morte encefálica. Além disso, a Secapt realiza sensibilizações e treinamentos aos profissionais de saúde e à população em geral, que incluem, além de aspectos da ciência médica, questões afeitas à religiosidade, bioética e filosofia.

Nos anos de 2017 e 2018 nenhuma família recusou a doação de órgãos nas abordagens realizadas pela equipe da Secapt e pela Organização de Procura de Órgãos da Escola Paulista de Medicina.

Para ser doador de tecidos (córneas, pele, ossos, vasos), não é necessário ter morte encefálica. É possível doar tecidos até seis horas após a parada cardíaca, desde que a causa da morte seja conhecida.

“Diria às pessoas que estão passando por esse momento para não se apegarem ao medo. O velório não é em nada prejudicado. Todo o respeito e consideração da equipe trazem uma calma muito necessária e é bem-vindo para a ocasião”, complementa Daniel.

PROCEDIMENTOS

A equipe médica do local onde o paciente está internado deverá comunicar a família sobre a gravidade do caso e da suspeita de morte encefálica. Saber sobre o risco de óbito do paciente e a abertura do protocolo de morte encefálica ajudam a família a trabalhar com a possibilidade da perda e iniciar o processo de luto.

Para confirmar a morte encefálica, é cumprido um protocolo determinado pelo Conselho Federal de Medicina, que determina duas avaliações clínicas realizadas por dois médicos diferentes, não integrantes de equipe de captação e transplante de órgãos, além de um exame complementar. Após a confirmação, o médico comunica a família.

“Posteriormente, a equipe atende a família e oferta a possibilidade da doação de órgãos e tecidos. A conversa é feita de forma clara, e a doação é apresentada como uma forma de amenizar o sofrimento da perda, e não como uma obrigação. A família que é bem atendida da recepção até a porta da UTI, e que se sente acolhida pelo serviço, terá mais chances de aceitar a doação de órgãos”, destaca Danielle Caliani Barbosa Machado.

Após a autorização familiar, o paciente é mantido na UTI ou emergência até a cirurgia de captação de órgãos. A Secapt notifica o paciente em morte encefálica à Organização de Procura de Órgãos da Escola Paulista de Medicina, que avalia o paciente, colhe exames e notifica a Central Estadual de Transplantes, responsável por ofertar os órgãos doados para as equipes transplantadoras e pela busca do receptor compatível.

“Este é um sistema financiado pelo SUS, sendo o maior sistema público de transplantes do mundo. A cirurgia de captação de órgãos é realizada em centro cirúrgico. Os potenciais doadores das unidades municipais são transferidos para a Santa Casa de Santos. O corpo do doador não apresentará deformidades e poderá ser velado naturalmente”, finaliza Danielle.