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Santos Portal inicia série em homenagem aos servidores da Prefeitura de Santos

2 de outubro de 2019
17h 43

O Santos Portal inicia nesta quarta-feira (2) uma série em homenagem ao Dia do Servidor. Ao longo do mês, serão publicados os perfis de 20 profissionais da Prefeitura, escolhidos pelas respectivas secretarias municipais em razão da ampla experiência, profissionalismo e reconhecimento aos serviços prestados ao Município.

 

Há 40 anos no serviço público, Chagas acumula conhecimento e histórias

Aos 61 anos, Fernando Wagner Chagas é um dos mais experientes motoristas de Santos. Assim começaria esta matéria se o entrevistado tivesse correspondido à expectativa do pai e herdado dele a profissão de taxista quando completou 18 anos, em 1976. Contudo, sem aptidão para o volante, o jovem morador do Gonzaga decidiu seguir outra rota.

Primeiramente, por garantia, adiou a matrícula na autoescola. E, como quem engata uma sequência de marchas, emendou quatro cursos de graduação: Jornalismo, Direito, Economia e Ciências Políticas. Para absorver tanto conhecimento, aprendeu inglês, alemão e italiano. E, ocupado com a vida acadêmica, afastou definitivamente a possibilidade do trabalho sobre as quatro rodas.

No entanto, logo no início da carreira profissional, uma ironia do destino. Assim como os melhores taxistas da praça, Chagas acabou se tornando um grande conhecedor das vias da Cidade. “Dezoito de dezembro de 1980. Cheguei à Prodesan e fiz um exame numa seleção para mão de obra externa. Era uma vaga só. E passei. O melhor cargo para alguém como eu, que não gostava de ficar preso numa sala, era o de mensageiro, que entregava impostos, taxas de licença e contribuições de melhoria. Também fazia a medição dos imóveis. Foi o melhor trabalho do mundo, pois eu vivia na rua. Conheci Santos como poucas pessoas já conheceram. Até hoje lembro dos endereços das casas”.

A partir daí, a carreira engrenou. Quatro anos depois, passou a ajudante auxiliar administrativo e, em 1986, foi transferido para a Prefeitura como celetista, na função de técnico auxiliar administrativo. Acabou efetivado em 1988, quando a nova Constituição Federal proporcionou estabilidade a quem já trabalhava por cinco anos em administração municipal.

Desde então, chegou a ocupar os cargos de chefe do Departamento de Orçamento e Gestão e de secretário-adjunto de Finanças, na secretaria onde atualmente ocupa o cargo de assessor técnico. Nesse meio tempo, ainda esteve cedido à Câmara Municipal por 16 anos.

 

Visão de mundo e as áreas sociais

O trabalho debruçado sobre as contas do Município permitiu que Chagas conhecesse em detalhes como funciona a mecânica da administração pública no País. “Normalmente, as pessoas criticam porque nunca entenderam como é o poder público”, comenta, enaltecendo os conhecimentos que adquiriu ao longo de anos no funcionalismo. “Mudou minha visão de mundo, que agora é muito mais ampla. Principalmente atuando na Secretaria de Finanças, com arrecadação, gasto, orçamento... Aqui você tem todo o retrato do Município. E ocorre igual no Estado e na União”.

Na atual função, ele tem a missão de garantir o combustível que move setores importantes da sociedade. “Hoje, basicamente, atuo na busca de receita para o Município porque há carências resultantes da estagnação da economia no Brasil. Então, é necessário buscar recursos sem aumentar a carga tributária, e distribuir entre as áreas prioritárias, de saúde, educação e assistência social”.

 

Código de barras e IPTU no celular

Tivesse se tornado um profissional do volante, Chagas hoje celebraria inovações como o câmbio automático e a câmera de ré. Mas, dedicado aos tributos, vivenciou com mais intensidade avanços como o pagamento de IPTU por meio de código de barras. “Foi algo revolucionário e a primeira prefeitura a aderir foi a de Santos, em 1991”, recorda, comparando também o processo de emissão dos carnês. “Demorava cerca de três meses para entregar. Tinham que perfurar os cartões e colocá-los no computador de grande porte para depois enviá-los à gráfica. Hoje, o IPTU cabe dentro do celular. Sai tudo automaticamente. A transformação tecnológica foi muito grande”.

 

Sufoco e alívio no fim do ano

Ao recordar grandes desafios na carreira, ele cita uma experiência que pode ser comparada à de consertar um carro em movimento a poucos metros da curva. “Em 1990, alteramos toda a base de tributação do recadastramento comercial, com mudanças nas taxas de licença e de ISS. Tudo isso em cima de uma legislação que ainda não havia sido aprovada na Câmara Municipal”.

Qualquer mudança no texto implicaria na invalidação de um trabalho de seis meses. E a retomada da base de dados anterior já não seria possível, pois um novo sistema tributário entraria em vigor a partir de 1991. Então, em 30 de dezembro de 1990, data limite para aprovação do projeto, técnicos da Prefeitura compareceram em peso à sede do Legislativo de Santos.

“Tivemos que convencer os vereadores de que não poderiam alterar nada, mas sem contar a eles que já havíamos emitido os carnês. Bastaria que mudassem um artigo para que todo aquele trabalho fosse jogado fora”. Por fim, a aprovação ocorreu. E sem alterações, para o alívio de Chagas. “Eu, que não bebo, naquele dia fui para o Carioca beber”.

 

Cachorros e espingarda

Não será pela falta de histórias curiosas que Chagas se arrependerá de ter preterido a profissão de taxista. Os tempos de visita a residências, por exemplo, renderam inusitadas passagens por conta de moradores resistentes a receber documentos de cobrança da Prefeitura.

Ele lembra que, certa vez, já estava no meio do quintal de uma casa, a convite do próprio dono, quando percebeu que se tratava de uma cilada. “O senhor nos disse: 'venha aqui para eu assinar, que vou abrir a porteira com 14 cachorros para correr atrás de vocês'. E abriu mesmo. Eu, graças a Deus, era rápido. Pulei um baita de um muro, com uma mão só”, relata, contando aos risos que ainda conseguiu auxiliar um colega com sobrepeso a sair pelo portão. “Se eu não abrisse, os cães iriam devorá-lo”.

Outra situação embaraçosa ocorreu por conta de um chalé conhecido como “Torre de Pisa” por conta da inclinação que apresentava. Assim que a equipe da Prefeitura chegou ao local, o proprietário ameaçou. “Falou que se fôssemos piorar a casa dele, nos acertaria com a espingarda. Acho que era de sal, mas doeria muito. E como poderíamos piorar a casa que estava caindo?”. Depois, descobriu-se que o mal entendido ocorreu porque o proprietário, dias antes, havia recebido oficiais de justiça que ameaçaram penhorar, e não “piorar”, o imóvel por falta de pagamento de IPTU.

 

Consultoria e praia

A um ano de se aposentar no serviço público, Chagas garante que não vai estacionar na pista. Pelo contrário, aproveitará a quilometragem acumulada em décadas de trabalho. “Vou para a consultoria em finanças públicas e aproveitar todo o conhecimento que adquiri como servidor”, anuncia, ressaltando que as atividades físicas serão mantidas na rotina. “Continuarei correndo na praia e andando de bicicleta”.