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Bebês com risco de perda auditiva são acompanhados em Santos até os três anos

10 de junho de 2019
13h 33

A técnica de enfermagem Adriana da Silva Kotona Ferreira conhece bem os serviços do centro de saúde auditiva (Secresa) da Prefeitura de Santos. Seus dois filhos são pacientes da unidade. Miguel, 2 anos, foi encaminhado quando identificado um risco para o desenvolvimento de deficiência auditiva. Embora o teste da orelhinha na maternidade não tenha apresentado anormalidade, ele fez outros exames e passa por acompanhamento conforme o protocolo da unidade: consulta aos 7 meses de idade e a próxima aos 3 anos, quando deve receber alta caso a previsão positiva se confirme.

A exemplo dele, outras 2,3 mil crianças estão inseridas no Programa de Atenção à Saúde Auditiva de Bebês de Risco, iniciado em 2007 na Prefeitura.

A irmã de Miguel, Maria Luiza, de apenas 1 ano, entrou para o programa após falhar nos testes da orelhinha ainda na maternidade. Após exames mais detalhados na Secresa, ela foi diagnosticada com perda auditiva profunda nos dois ouvidos, utiliza aparelho auditivo e passa por acompanhamento semanal com fonoaudióloga. Ou seja, não é mais considerada um bebê de risco, uma vez que a deficiência auditiva foi diagnosticada. Mas o Programa de Atenção à Saúde Auditiva de Bebês de Risco foi a porta de entrada para que ela recebesse o tratamento adequado.

“O atendimento na Secresa é muito bom. Nos dão todo o suporte de que precisamos”, destaca Adriana.

 

COMO FUNCIONA

A pediatra Mariana Reclusa Martinez explica que o programa tem caráter preventivo, de acompanhamento pontual de crianças que, embora apresentem algum fator de risco, têm boas perspectivas.

O primeiro exame feito na Secresa é o Bera Triagem, que avalia a integridade de toda a cadeia auditiva do bebê. Por ser extremamente sensível, esse exame só pode ser realizado quando o bebê está dormindo. Um movimento da criança, uma emissão de som ou o simples abrir de olhos interfere nas ondas elétricas do exame. Caso o Bera Triagem acuse alteração, é realizado outro exame, o Bera Diagnóstico, mais detalhado, para mapear exatamente onde ocorre a perda auditiva e em qual frequência de som. Esse teste é fundamental para identificar o aparelho auditivo mais adequado para a criança que tem deficiência auditiva.

Porém, quando o resultado do primeiro exame é satisfatório, alguns pais questionam se é realmente necessário a criança retornar à unidade aos 7 meses. É sim. Há bebês que podem desenvolver perda auditiva progressiva, especialmente se houver histórico familiar, mesmo que inicialmente seus exames não tenham apresentado alterações.

Aos 7 meses de idade, a criança é submetida novamente ao Bera Triagem e passa também pela audiometria de reforço visual, realizada por um aparelho que emite som e luz e permite verificar se a criança o acompanha, virando a cabeça para o lado certo.

“Além do desempenho auditivo, conseguimos avaliar o desenvolvimento neurológico da criança também”, explica.

Caso esta etapa transcorra sem intercorrências, a família é orientada a retornar com a criança ao serviço quando completar três anos de idade para fazer a audiometria dentro de uma cabine, com fone de ouvido, igual à realizada em adultos. Por meio desse exame, é verificado se a criança apresenta troca de letras na fala ou qualquer outra alteração. Sendo o resultado satisfatório, finalmente recebe alta.

Outros fatores importantes para manter o correto acompanhamento da criança na unidade é que, com o paciente mais crescido, os profissionais conseguem identificar alterações na fala, acompanhar casos crônicos de otites, ou até mesmo investigar uma eventual relação de algum problema de audição com dificuldades na escola e comportamento disperso, por exemplo.

 

TESTE DA ORELHINHA

É muito comum os pais se desesperarem quando o bebê falha no teste da orelhinha feito na maternidade. O exame, então, é repetido 15 dias depois e a segunda falha muitas vezes representa para eles um diagnóstico fechado para deficiência auditiva. Mas não é.

 Mariana explica que o teste da orelhinha é um exame de rastreio e que não necessariamente o bebê que falhou vai desenvolver uma surdez.

“Pode haver líquido do parto no canal auditivo, cera. Até um resfriado pode causar alteração no teste da orelhinha”, explica Mariana.

 

APOIO

A Secresa possui uma equipe multidisciplinar de atendimento. Além de pediatra, fonoaudiólogos, otorrinolaringologista, a unidade possui psicóloga e assistente social para dar suporte, neste caso, aos pais das crianças.

“Há pais que necessitam de apoio psicológico para orientação, melhor aceitação do diagnóstico. Há casos de sucesso, de crianças que mesmo com a perda auditiva, não tiveram comprometimento em seu desenvolvimento e nem no desempenho escolar”, destaca a pediatra.

 

REQUISITOS

Para entrar no programa, é necessário ter até um ano de idade, morar em Santos e estar incluído nos critérios de risco para a deficiência auditiva. Geralmente, o encaminhamento é feito pela policlínica ou pelo Programa Recém-Nascido de Risco da Secretaria de Saúde.

Na Secresa, além do encaminhamento, é necessário apresentar o cartão verde distribuído na maternidade (se tiver), certidão de nascimento, cartão SUS (se tiver), comprovante de residência recente, caderneta de vacinação/saúde da criança, carteira de pré-natal e documento do responsável (RG e CPF).

A Secresa fica na Avenida Bernardino de Campos, 617, Gonzaga.

  

Principais Fatores de Risco para Deficiência Auditiva em recém-nascidos, de acordo com o Ministério da Saúde

 

  • Permanência em UTI neonatal por mais de 48 horas;
  • Peso de nascimento inferior a 1,5 kg;
  • Sinais ou Síndromes associadas à deficiência auditiva condutiva ou neurossensorial;
  • Antecedentes familiares de perda auditiva neurossensorial;
  • Consangüinidade (pais que pertencem à mesma família);
  • Malformações crânio-faciais (anomalia de canal auditivo e de pavilhão auricular, lábio leporino, fenda palatina);
  • Infecções congênitas (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes, sífilis, Aids);
  • Uso de antibióticos por mais de cinco dias;
  • Hiperbilirrubinemia (icterícia);
  • Meningite bacteriana;
  • Ventilação mecânica por período mínimo de 5 dias;
  • Asfixia perinatal/hipóxia neonatal (apgar de 1º minuto do nascimento de 0 a 4 /5º minuto do nascimento menor que 7).
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Foto: Rogério Bomfim